18 de jul de 2018

Resenha: Nunca houve um castelo

Nunca houve um castelo
Martha Batalha
2018, Companhia das Letras

SINOPSE:
Rio de Janeiro, 1968. Estela, recém-casada, mancha com choro e rímel a fronha bordada de seu travesseiro. Uma semana antes ela estava na festa de Réveillon que marcaria de modo irremediável seu casamento. Estela sabia decorar uma casa, receber convidados e preparar banquetes, mas não estava preparada para o que aconteceu. 
Setenta anos antes, Johan Edward Jansson conhece Brigitta também em uma festa de Réveillon, em Estocolmo. Eles se casam, mudam-se para o Rio de Janeiro e constroem um castelo num lugar ermo e distante do centro, chamado Ipanema. 
Nunca houve um castelo explora como essas duas festas de Ano-Novo definem a trajetória dos Jansson ao longo de 110 anos. É uma saga familiar embebida em história, construída com doses de humor, ironia e sensibilidade. A riqueza e a complexidade dos múltiplos personagens criados por Batalha permitem tratar de temas que se entrelaçam e definiram a sociedade brasileira nas últimas décadas, como o sonho da ascensão social, os ideais femininos e feministas, a revolução sexual, a reação ao golpe militar, a divisão de classes, a deterioração do país. 
Um romance comovente sobre escolhas e arrependimentos, sobre a matéria granular da memória e as mudanças imperceptíveis e irremediáveis do tempo.

Em 2016, despretensiosamente, comprei o A vida invisível de Eurídice Gusmão por dois motivos: 1- eu acho a capa incrível e 2- estava com saudades de ler autoras nacionais. O resultado foi um dos livros que mais me surpreendeu e mais uma autora nas listas para admirar: Martha Batalha.
Pois bem que agora, no início de 2018, ela lançou seu segundo livro pela Companhia das Letras, Nunca houve um castelo. Claro que não descansei até comprá-lo e terminar a leitura.
Martha Batalha recriou e construiu a história dos descentes de Johan Jansson, um cônsul da Suécia no Brasil que construiu um castelo em Ipanema, em 1904.

“ – O que existe depois daquela igrejinha? – Perguntou Brigitta.
– Nada – disse Johan.
Nas muitos vezes em que se lembrou desse dia, Johan não soube dizer se foram as vozes ou a ausência delas que fizeram sua mulher dizer:
       Então é para lá que devemos ir.”

Começando por Johan e Brigitta e passando pelos filhos, netos, pais, noras e conhecidos, a autora conta a história de cada personagem que participa deste livro. Todos eles tem início, meio e fim, e isso é fantástico.
Todos que passam pelas páginas são igualmente importantes e reais, ou seja, eles erram, acertam, tem medos e certezas. O leitor se envolve muito com a família e é incrível ver como o tempo e os acontecimentos modificam tanto as pessoas, as relações e o próprio Rio de Janeiro.
Ela cobre quase um século da história de Ipanema, um dos bairros mais famosos do Rio de Janeiro, e também do Brasil, já que dá destaque para duas coisas muito importantes: a ditadura e o fortalecimento da mulher na sociedade.
Outra preocupação clara da autora é o contexto histórico do livro, é notável toda a pesquisa e vivencia que ela teve que passar para escrever com tanta propriedade.
Uma característica que eu já havia amado no primeiro dela, e só fortaleceu nesse é como ela retrata tão bem o universo feminino. Todas as personagens mulheres são fortes, bem construídas e cativantes, cada uma a sua maneira.

"Para que se casar? Gostava de ser muitas mulheres, desde que nenhuma fosse a mulher de alguém."

Além disso, Nunca houve um castelo traz doses de humor, de tensão, amor, traição, dúvidas, amizades... resumindo: é extremamente real. E, apesar de retratar um outro século, é muito atual (o que dá mais força para a crítica social que o livro apresenta)
Sabe aquele livro que você dá risada em uma página, quase chora três páginas depois, tem raiva de um personagem ou de uma situação no começo do capítulo e termina o mesmo torcendo por ele? É exatamente assim.
Obrigada por mais um romance completo, sensível e profundo, Martha <3

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